lundi 6 février 2012
Noite adentro, raiva afora
Quando a raiva chega, é para valer. As noites de furia são e serão sempre as piores. Nessas noites reza-se para fechar os olhos e acordar em Verdun, no meio de um ataque... dou a volta ao mundo, viajo no tempo pensando em cada momento que desperdiçou essa minha ira: Omaha Beach, Stalingrado, Hastings, Trafalgar, Austerlitz, Waterloo, Cartago, Troia, Bannockburn, Stirling, o Bakumatsu, as Cruzadas... tantos lugares em que meu sangue teria fervido e molhado o solo para, finalmente, me apagar da existência. Deixar tudo para tras.
Agora so posso martelar as teclas e escrever como murmuraria no ouvido dele com uma voz doce, quase amorosa:
"Sei o que houve entre vocês... e quando você me diz que terminou, quero que pense muito bem. Quero que hesite antes de falar e me olhe nos olhos antes de abrir a boca, seu filha da puta... e quando falar, fale devagar, saboreando o peso de cada palavra, de cada silaba... cada fonema. Quando sua frase acabar, meu caro, feche a boca e mantenha o silêncio que deve seguir cada juramento solene, esse mais do que todos... mais do que aquele que você vai fazer no dia do seu casamento, mais do que aquele que você fez quando terminou seu curso de geologia. Sinta esse peso porque casamentos se soldam em divorcios, diplomas e ética não querem dizer nada nesse mundo cão.
Mas o juramento que você me fez, cara... Ah, se você quebrar esse pode ter certeza que vou te caçar para onde quer que você fuja, vou te achar e arrancar teu pau. Manda-lo-ei para ela via Sedex, para que ainda chegue sangrando."
Os erros e a sujeira fazem parte de nossas vidas, sim. Continuar neles é tudo o que se pode fazer de mais vil, de mais inumano, de mais escroto. Quando isso acontece, o mundo tem que queimar.
dimanche 12 juin 2011
Folhas secas
Aconteceu ja na primeira semana que passei aqui, e vem se repetindo desde então. Sempre à noite, sempre depois das dez. Quando a insônia leva o descanso para longe, abro a janela para fumar um cigarro e ouvir o silêncio na esperança de sentir o mundo um pouco melhor. De repente um ruido de algo se arrastando pelas folhas secas chega da janela. Pensei ser um gato, mas nenhum felino que se preze faz tanto barulho ao caminhar. Deve ser algo maior e mais pesado, mas se o vizinho tivesse algum animal, não deveria ter visto ou ouvido algo nas horas mais claras, em outros momentos do dia?
Hoje aconteceu de novo. Tentei ignorar, mas o ruido foi muito grande e me fez debruçar na janela. Olhei na direção do quintal que a noite havia transformado em um poço de negrume aveludado, que a copa da mangueira protege como um escudo morbido. O barulho diminuiu instantâneamente, depois parou. Fixei a escuridão com a estranha sensação de que ela me devolvia o olhar. Quando me afastei da janela, o ruido retomou por alguns segundos antes de parar de vez.
Penso em um dia pegar uma lanterna para resolver o mistério. Me pergunto o que o feixe luminoso vai revelar.
lundi 23 mai 2011
Filosofia paulistana I
Ela atirou sobre mim seu sorriso indiferente, roubou-me um pouco de fôlego - pois precisava de ar - e saiu batendo perna pela calçada.
Deivia ter tomado mais cuidado: nunca confie nas naiades de garrafinha plastica.
Azeitino urbano
Um cego olhou para o outro e disse; "la vai Azeitino de novo, procurando um susto que lhe devolva a vida".
Realmente, la se ia Azeitino. Perambulava pelas ruas da cidade com seus passos perdidos nos sapatos gastos de calçadas, metrôs e ônibus. Carregava debaixo do braço a pasta plastica que lhe conferia aquele eterno ar de candidato a emprego.
Não tinha vida, nosso Azeitino. Anônimo, ele se perdia da multidão, apagava-se da memoria das pessoas tão logo saia de seu campo de visão. Não deixava vestigios no mundo, não traçava contornos ao redor de si.
Mas olhava, mas via.
Via o sol de outono batendo nas janelas dos prédios. Via o balançar das arvores ao longo das avenidas. Via as imensas filas de pés e portas, de pequenas rachaduras nos cantos do concreto. Sabia dizer quantas folhas havia em cada broto de arvore que despontava entre as placas cinzentas dos muros entre sua casa e seu trabalho. Deliciava-se com a poesia surrada que extraia da sutileza singela de uma planta que se içava sobre a pedra escura e suja. Lambuzava-se nela semanas a fio, até a chegada do dia em que o broto simplesmente desaparecia, arrancado por algum automovel, pedestre ou funcionario da prefeitura. Nesses dias ele parava, contemplava com olhos tristes a imensidão concreta e homogênea, depois seguia seu caminho com um suspiro. Não mais que um suspiro, pois desde o momento em que notava um novo pingo de verde algo dentro de si ja o informava secretamente do fim abrupto que um dia viria, como viriam outros verdes para os quais estava selado o mesmo fim, mudando apenas o tempo de espera. Duradouro mesmo, so o concreto, renovado ano sim, ano não, na contante preocupação de criar uma cidade relativamente homogênea e continua.
Era a segurança do motorista que singrava as avenidas com os olhos cravados no astalto à frente, a calma do pedestre que precisa do espaço limpo dos entulhos, quer sejam humanos ou naturais. Azeitino sabia disso também. Sabia da sujeira e do potencial destrutivo das pequenas raizes que se esgueiravam pelas microfissuras de cada pedra e abriam-nas dia apos dia, até estourarem por completo, rachando calçadas e fechando estradas. Isso não o impedia de torcer por elas. As vezes durante a noite ele sonhava, sozinho em seu apartamento de solteiro, com uma arvore a devorar a cidade.
mercredi 20 avril 2011
De Pimentas e Sombras
Seu coração batia a chamada da adrenalina enquanto ondas de calafrio se espalhavam ao longo da espinha, eriçando pelos e cabelos debaixo do agasalho. Sentia vergonha do que fizera até então, mas aquilo que estava prestes a fazer lhe causava verdadeiro pânico. Respirou fundo uma, duas vezes e deu o primeiro passo, depois o segundo, depois o terceiro, sentindo a tensão diminuir levemente à medida que cobria a distância que o separava do portão. Em seu lugar surgia a velha sensação de luta. "Let's get over with that bloody thing once and for all", como lera certa vez no museu da Black Hatch em Edimburgo.
Parou diante do portão de madeira que passara dois dias observando. O marido so voltaria do trabalho às sete horas, o que lhe dava muito tempo para fazer o serviço. Tocou a campainha e aguardou os interminaveis instantes necessarios. Finalmente, a porta se abriu de leve.
- Oui?
Ouvir novamente aquela voz foi um choque, mas ele se conteve.
- Madame Jacquet-Saraiva?
- C'est moi...
-J'ai une lettre pour vous.
A porta finalmente se abriu. Seu rosto guardava a jovialidade de sempre, mesclada a uma maturidade nova de mulher-ja-mãe-antes-mesmo-de-o-ser. Sua barriga ainda não denunciava a criança que abrigava, a criança que ela fizera com o outro - que sempre sera outro para quem nem "aquele" foi.
Ela o fixou com o olhar durante alguns segundos antes de reconhece-lo.
- O que você esta fazendo aqui?
Ele sorriu ao sentir um leve tremor de medo em sua voz.
- Tudo bem?
- Tudo bem. O que você esta fazendo aqui?
- Não vou dizer que estava de passagem e por acaso vim aqui. Na verdade so vim por sua causa. Vim confessar que te amei e te amo a ponto de atravessar um oceano e um pais so pra te dizer isso... Ah, sim... e para te entregar esse papel.
Enfiou a mão no agasalho e sacou uma folha dobrada. Ela olhou o papel como se fosse uma bomba ou uma condenação à morte, mas acabou por aceita-lo. Desdobrou-o e surpreendeu-se ao se deparar com seus proprios traços, um desenho que fizera outrora e havia muito esquecido. No canto inferior, rabiscado em sua caligrafia, lia-se "Para você lembrar de nossa noite de luz azul".
- Faz doze anos que eu olho para ele quando tudo me abandona. Queria deixa-lo com você...
Deu-lhe as costas e afastou-se lentamente, lutando para não correr, rangendo os dentes na esperança de não enrubescer apesar de ja saber que seu rosto parecia um tomate naquele momento. Sentia-se como um adolescente ridiculo e arrasado pela propria vergonha. Sabia que aquela despedida não lhe traria nada de mais, mas que precisava faze-la. A esquina se aproximava lentamente. Apenas mais alguns metros e ele poderia sair daquela rua, entrar na avenida. De la pegaria o ônibus que o levaria de volta à estação de trem. Voltar para Paris, beber novamente a solidão e enterrar o sonho... talvez até ir à Inglaterra, mochilar pela Escocia como antes, por que não? O que lhe faltava em proposito sobrava em tempo...
Se alguém ler isso, saiba que nosso personagem acabou de chegar à esquina que tanto observa e almeja. Todavia, algo me vem à mente e sinto a necessidade de compartilha-lo com o leitor: sim, estamos em um mundo onde finais felizes podem ou não acontecer, onde a cada vez mais implacavel realidade empurra a fantasia até seus ultimos bastiões, ocultos dentro da bruma do cinismo com o qual olhamos nossas ilusões de infância. Ainda assim, quero terminar essa historia com algo mais do que a ja batida conclusão em aberto. O que fara ela, que deixamos na porta de casa com uma criança no ventre e um desenho nas mãos? Ora, sim, é claro que todos sabem das infinitas possibilidades e das provaveis probabilidades... mas permitam-me aproveitar da minha liberdade de escritor frustrado e da massa ausente de leitores avidos para colocar não um, mas alguns fins nessa historia onde Pimenta e Sombra demandam uma definição. Irei escrevê-los quando e como me vierem, felizes ou tristes. Escolham o que quiserem, pois apenas aqueles dois sabem quais linhas escreveu a vida real.
lundi 18 avril 2011
E depois de muito silêncio...
Estou naqueles momentos em que a vida parece estranha e tediosa, sem mais nada. Os amores de infância, adolescencia e idade adulta? Todos se foram, muito bem juntadas, casadas ou simplesmente de costas dadas e pés na estrada. O mundo se recorta em contas para pagar, um futuro obscuro onde me espera solidão. E dificil e acho que preciso ver um psicologo para não cair na armadilha da autopiedade suprema e improdutiva.
"Aonde foi que eu errei com você?", disse meu pai outro dia. Para muitos essa pergunta vem repleta de acusações, dedos apontados no rosto e palavras asperas... para mim, foi apenas uma constatação triste daquele que me carregou nos ombros a vida inteira: "você esta infeliz, e me sinto responsavel. Não soube te preparar para a vida, não soube te dar as armas necessarias para que seu sorriso se mantivesse apesar de todas as adversidades"...
Ah, pai... mas você soube, e soube muito bem. O problema é quando as adversidades são ao mesmo tempo grandes e numerosas demais, os amigos, distantes, a familia, quebrada, os entes queridos, mortos, o trabalho, um tormento, o conforto material e intelectual, inexistentes. Você me preparou bem, mas eu dei azar, fui um otario, não soube ser arrojado e tudo isso se juntou para fazer minha tristeza. Não fio culpa sua, não foi culpa sua... Foi culpa de todo mundo, sobretudo minha, antes de você sequer chegar perto da lista dos responsaveis.
A Pimenta deu as costas, esta casada e gravida, muito bem, obrigada, na França (pois é, né??), vivendo em Lyon. A Gringa também me deu as costas (duas vezes seguidas, como a Pimenta, olha so!!) e também esta levando a vida dela. Deve estar para casar nesses dias, assim que o mês de maio trouxer mais calor para os campos de mostarda... enfim, ja faz um tempo que as estantes de biblioteca e livrarias não escondem novos rostos que suscitem novas paixões, e as que me circundam e me são dirigidas não me interessam.
"Aonde foi que eu errei", pai, é uma pergunta que eu devo me fazer... você não.
jeudi 30 avril 2009
Chill out time...
A noite chegou devagar e como o cansaço se faz sentir vou aproveitar dessa véspera de seriado para rever meus episodios favoritos de "The Big Bang Theory", preencher as lacunas da minha cultura Sci-Fi e surfar na internet. Geeky night, mas que se dane: a cretinice do mundo me da vontade de assumir com orgulho meu lado nerd. Além disso, não existe nada melhor do que encadear um seriado que fala de sci-fi, RPG, videogame, comics, etc. etc. e depois correr atras das referências que a gente nao conhece pessoalmente.
Tem outra coisa que me agrada nesse tipo de noite: depois de saturar o cérebro com uma bateria de mangas e outras séries pontuadas de risadas, filmes com lasers e historias de horror a vida parece mais divertida; de repente a livraria vazia se torna o espaço de um encontro potencial, a internet me leva de volta para uma pequena ardida e até da vontade de acreditar que um dia, quem sabe... quem sabe eu também vou ter calma, maturidade (ou falta de) para ter um final feliz.
lundi 9 février 2009
Outro dia reencontrei V., um ano e meio depois de uma ruptura que desceu como uma marreta na minha cabeça. Ano e meio durante o qual fui zeloso em odia-la, em me odiar, em procurar paquenas coisas que possam fazer o dia passar rapido e a noite chegar para poder beber, beber e não pensar mais nas coisas que perdi. Se estivesse na Inglaterra oi na Escocia, teria os pubs. No Brasil, os amigos te sacodem e ajudam. Em Paris, você enche a lata na frente do seu copo e, se tiver sorte, conversa com o barman.
Depois de um ano e meio nadando em meu proprio fel, depois de ter recusado voltar para ela com o prazer amargo de quem finalmente encontra uma possibilidade de vingança, depois de tentar virar a pagina, sabado passado me dei conta que não conseguia. Engraçado como podemos passar a vida cantarolando Paulinho da Viola sem realmente compreender que "amor é dificil de achar, a marca dos meus desenganos ficou, ficou, so um amor pode apagar". Sem novo amor e sem forças para procurar, decidi deixar um ultimo recado para ela. Não um pedido de volta, não um insulto... deixei apenas um rosario de frases curtas e uma despedida que ficou atravessada na garganta.
jeudi 13 novembre 2008
Dan Brown e meus demônios
Então, apos ler o ultimo post do McFly e da Guili no http://caducando.wordpress.com/, resolvi escrever sobre algo mais chato do que eu: literatura.
No Caducando falou-se bastante em Dan Brown. Hum... na verdade esse cara ocupou boa parte da midia planetaria durante algum tempo, a ponto de seus livros adquirirem o status do filme "Titanic": você nao quer ler porque ja ouviu tanto falar que tem a impressão de ja conhecer tudo de cor (obrigado, Italo Calvino). Mas convenhamos; Dan Brown é um monte de coisas boas e ruins:
Ele provou que ainda é possivel se tornar milionario sem escrever livros de auto-ajuda.
Mostrou de forma empirica que nesse mundo perigosamente pratico onde se bombardeia estudantes de literatura e filosofia com a eterna pergunda "o que você vai fazer com isso?"as pessoas ainda podem descobrir um interesse repentino por dados irrelevantes como a quantidade de placas de vidro que compõem a pirâmide do Louvre ou, em um plano mais historico, a "rose ligne".
Finalmente, o cara conseguiu fazer mais de um milhão de pessoas lerem um tijolo de quatrocentas paginas sem chiar.
Isso tudo é digno de respeito. Diria até mais, o cara merece aplausos.
Mas convenhamos que do ponto de vista literario ele é nada mais do que mediocre.
A literatura não envolve somente idéias e informações, mas também a maneira de expô-las. Dan Brown é o primeiro grande romance em que a ação se encadeia com discussões breves e flashbacks literarios que não precisam de nada para serem adaptados a um filme. Releiam o "Da Vinci Code" e vejam por si mesmos: o cara consegue enfiar três dias em quatrocentas paginas, enquanto Flaubert precisou de muito menos para retratar a vida toda de Emma Bovary.
Não é apenas o tamanho da obra e sua brevidade no tempo. Afinal, Life and Opinions of Tristram Shandy também cobre um curto periodo para um volume enorme de palavras, mas Sterne usou um artificio bem mais original que Brown.
O leitor eventual que ainda insistir em seguir minhas linhas deve estar se perguntando "Mas por que tanta raiva no coraçãozinho desse cara?"... Eu explico com um exemplo pratico: Quantas vezes não ouvimos dizer que "o filme é bom, mas o livro é melhor"? é justamente essa a riqueza do livro, que ele seja uma obra de valor literario reconhecido ou um bom thriller! Caramba; o livro tem algo mais que o filme não consegue traduzir. No livro o autor explora o universo interno dos personagens, o uso da linguagem na voz narrativa é a riqueza propria do romance!...
Nos EUA existe ha muito uma modalidade de escrita que consiste em fazer o contrario, transformando filmes famosos em livros. Você pode ler Ghostbusters II e Bradock! Fato aceito, é claro que uma obra escrita baseada em um filme tera uma estrutura diferente da obra literaria pensada desde o inicio como tal. O Da Vinci Code é a primeira obra inicialmente literaria com uma estrutura quase toda visual. Os raros pontos nos quais ha digressão podem ser facilmente adaptados, e se os estudios tivessem um pouco de panache eles teriam adaptado o livro inteiro para o cinema, sem esquecer uma linha sequer!
Para mim acabamos de entrar em uma nova era onde os livros (nao vou ousar dizer "literatura" novamente) se dividirão em três categorias:
Os de uso pratico, onde poderemos encontrar desde manuais de windows até auto-ajuda.
Os romances visuais, que seguirão a linha do Da Vinci Code
A literatura verdadeira, cada vez mais alienada por causa dos proprios literarios, que insistem em se considerar seres intelectualmente superiores em um mundo povoado por cretinos e por isso mesmo se isolam em sua propria esfera.
Tudo isso para chegar à seguite pergunta: Dan Brown deve ser considerado como literatura? é claro que deveria! Ignora-lo seria ignorar o verdadeiro fenômeno de distanciamento do abstrato que orquestra os caminhos da cultura atual. Ele deve ser estudado, sim. Sua estilistica, seus artificios e os termos empregados... enfim, um estudo da semiotica da comunicação do Da Vinci Code poderia ser sobreposto com um estudo da semiotica global do século XXI (nossa, como sou vago no que digo!) e nos ajudar a entender por que, depois de dois mil anos pensando e dechifrando, resolvemos finalmente optar pelo obveo.
mardi 4 novembre 2008
De volta à vida online.
Poderia até dizer "De volta à vida", ponto final. Foi preciso muito Brasil, muita cerveja e horas de conversa nos quatro cantos do mundo (ok, exagero de vez em quando...), mas estou acordado mais uma vez.
Nem sei se alguém ainda visita esse blog, mas não tem importância. Se aparecerem, estarei aqui pois minha fase de alergia à internet passou. Mas nem por isso vou me tornar um maniaco do online. Foi preciso uma boa sacudida para eu poder ver novamente a importância do olho no olho, de uma conversa com presença fisica. Desde que a rede se tornou um prolongamento do individuo o tempo que se passa na frente do computado substituiu muita coisa - coisa demais ao meu gosto.
Semana que vem chega o Marcão. Preciso ir à biblioteca cuidar do meu texto, acertar as toneladas de coisas para fazer e, se der tempo, ler o Malleus Maleficarum para me divertir.
mercredi 21 mai 2008
mardi 11 mars 2008
Da mão trêmula
Como um pedaço de céu esquecido que se aventurou perto demais da terra.
Mas por que?
Não ha...
Não ha porquês em um libélula, nem diferença, nem fronteiras. Ela mora no vento e vai embora.
Sua unica lembrança
São os relances de seu verde esmeraldino
E sombras de anéis na agua turva.
vendredi 7 mars 2008
Modernismo barato...
me deu___________________me deu
uma Flor______me deu______uma Fada
dimanche 2 mars 2008
Concerto noturno
Duas da mãnhã: hora fatidica em que começo a contagem regrassiva para o sono. Tomei meu donormyl efervescente, espero o cansaço e os olhos que ardem. Na cabeceira, Jean de Meun me espera com seus monologos interminaveis sobre o amor racional. Quando me sinto sufocar, pego os loucos de amor com um sorriso cumplice, pequena piscadela para todos os que ainda insistem em deixar de ter medo.
Enquanto la fora dança a noite em seu ballet de estrelas, o mundo parece melhor.
Desliga a têvê, abre a janela para a fada entrar.
Se quiser beber, beba!
Chore, se quiser chorar...
Antes de dormir, pense como é bom enlouquecer nas costas da sanidade, pedalar nos algoritmos, escorregar nas regras da absurda gramatica, perder os laços dos cantos esquecidos amarrados no concreto escuro.
Voar um pouco, mas voar bonito
E mandar uma banana para os ângulos retos.
lundi 25 février 2008
Studio et Morior
Pegue a tortuosa rue de la Harpe, drible os paralelepipedos irregulares e os cheiros de queijos e churrasco grego. Pegue a rue de la Huchette, siga até o fim e você desembocara na rue de la Bûcherie. Numero 37.
Pronto.
A porta se fecha sobre o mundo. E te cospe no espectro dos universos à espera.
Todos os dias.
Sempre que posso e até fechar, fico la.
No andar de cima, cadeiras e colchões me esperam, felizem em me ver. Todos meus amigos me olham das estantes.
Companheiros de copo,
Colegas de choro,
Amigos de estrelas que dividem comigo a silueta da Notre-Dame recortada na janela.
Charlotte Higgins me fala de amor em latim, Terry Pratchett solta seus rolos de fumaça sorrindo por antecipação das piadas que vamos dividir. Will Shakespeare é grande, estatelado por todos os cômodos, o rosto dividido entre riso e chôro. Em algum lugar Michael Crichton conta suas historias incriveis, mas Tolstoi so pensa em ir embora, fugir, criança crescida.
Converso com cada um, nunca tanto quanto gostaria. Me apaixono, fico de mal, rio e abraço.
Quando a necessidade chama, abro a mala e o sotaque medieval de Jean de Meun se destaca entre os demais.
De repente, é hora de fechar. Vou embora, me perguntando sobre as sombras que às vezes passavam entre meus amigos e eu. Parecia que falavam algo,
Como se houvesse mundo fora do papel.
Coisa estranha...
mercredi 20 février 2008
Paris, Paris...à vélo.
A Fada, ciclista assumida e militante, afirma que o vélibista (nome que encontrou para os usuarios do vélib') não passa de um usuario do metrô que de vez em quando resolve pedalar um pouco para aproveitar do sol. Perdi a conta dos cafés que banharam nossas discussões acaloradas que vão buscar as raizes da cultura francesa onde dois individuos que partilham o prazer da bicicleta preferem quebrar o pau vendo qual é mais ciclista ao invés de abraçar a cumplicidade das preferências comuns. Mas fazer o que?
Sou um velibista profissional e assumo plenamente. Quando voltei para Paris com o coração nos calcanhares decidi que andar de bicicleta ia me fazer bem, e fez. Perdi cinco quilos, ganhei fôlego e de quebra conheci belos cantos que so se pode descobrir perdendo-se.
O velibista "profissional" é aquele que renuncia definitivamente à inércia do metrô. Faça chuva ou faça sol, ele esta sobre sua bicicleta, enchendo o saco dos taxistas no corredor de ônibus, passando os farois vermelhos e ameaçando os pedestres babacas que têm essa estranha mania de atravessar na faixa!
O velibista apalpa a bicicleta antes de retira-la, sacode, pedala no vazio... Ele conhece todos os macetes para pegar uma que seja perfeita. Estamos atualmente tentando adaptar esse maravilhoso conhecimento preventivo à escolha de uma mulher, mas resultados recentes mostram que apalpar, sacudir e pedalar no vazio não funciona com o gênero feminino (pelo menos não no começo do primeiro encontro).
Melhor mesmo são os trajetos, mas desses falarei depois.
lundi 18 février 2008
Fée de moutarde
Em sua bicicleta preta envenenada de campainha e cesta de vime, ela desenha as ruas de Paris.
Quando de salto alto, tenho que olhar para cima para encontrar seus olhos. é melhor, pois tenho que passar pelo seu sorriso e o caminho se torna mais belo.
Quando em casa, ela escreve dos pães que faz e me conta dos seus pais em Dijon, de caminhadas na floresta e outras tantas alegrias.
Geniosa, ela discute até te convencer de seu ponto de vista ou o contrario... e sai emburrada. Mas isso ainda não vi.
De repente me conta de livros.
E some na multidão deixando um rastro de fagulhas e polen de mostarda.
Sobra um "dring dring" flutuando na esquina
E um pequeno sorriso no canto da minha boca.
mardi 15 janvier 2008
vendredi 11 janvier 2008
Nuit Blanche
Por volta das duas, não vale mais a pena tomar comprimido. Não quando se deve acordar às sete. Não quando se sabe que faltar no seminario significa perder o semestre.
Enquanto a noite vai passando, a televisão cospe seus programas sem graça, os livros se tornam perigosos e queremos sacudir o mundo para ver cairem os prédios.
Quando a angustia atinge seu apice, por volta das cinco e meia, parimos textos febris. Depois, o cansaço. Levantamos os olhos da folha ou da tela, e vemos la fora a vida que começa a renascer.
A verdadeira felicidade é um sono sem sonhos.
Everlong
When I sing along with you
If everything could ever feel this real forever
If anything could ever be this good again
The only thing I'll ever ask of you
You've got to promise not to stop when I say when... "
Foo Fighters - Everlong
« Pois então diga… »
Foi o que ele ouviu antes de perder apoio no vazio do silêncio. De repente o mundo emudeceu. Não era o vento gelado que varria a imensa esplanada da biblioteca François Mitterrand. Não era o cinza-chumbo do céu nem os prédios imponentes que os cercavam como quatro monstruosos livros abertos em suas paginas de concreto e vidro. Era ela.
E mais nada.
Não saberia dizer como chegara até ali, nem por que entrelaçamento das malhas de decisões e destinos ela estava la, parada na sua frente.
O sangue subiu-lhe à face. Ele precisava falar, queria falar, mas a barreira de repente se tornara grande demais. Desaparecidas as grades de toda eloquência, as palavras hesitavam diante da liberdade. Era tão mais facil ter que se domar e viver com a doce frustração do segredo, as pequenas esperanças e minúsculas vitórias do querer, do ver e não tocar...
E de repente, por algum motivo que naquele momento lhe escapava, a fronteira havia sido cruzada. Naquele momento as lembranças desfizeram a malha dos dias passados amontoados no ângulo morto da vida para rever todas as pequenas coisas que fizeram-nos convergir para aquele instante que dissolvera o mundo. Ali estava ela, olhando-o, esperando.
“Pois então diga...”
Tentou, em vão, ler algo no seu rosto. Os profundos olhos castanhos efervesciam e, atrás das pequenas constelações que ele às vezes contava, reluzia no escuro a inteligência como uma navalha, pronta a ser desdobrada. Sem sorrir, sem nervosismo, com a neutralidade dos que têm a segurança de saber quem são, ela esperava suas palavras. Ele queria rir, contar uma piada ou falar do tempo, mas era tarde demais. Pedira toda a sua atenção, e seu desejo havia sido atendido. Não havia para onde correr.
De repente, o chão sob seus pés.
O Vento.
A Vida.
Precisava falar. Que se explodam as conseqüências.
“Não tenho por onde começar, nem por onde terminar. Estou ainda perdido em um mundo que não conheço, fora por alguns pequenos, insignificantes detalhes.
Se te pedi para vir até aqui, foi para te dizer que gosto desse mundo que descobri. Que gosto de me perder nele, e que à medida que comecei a conhecê-lo, a cada dia desenterro um novo tesouro, vejo novos horizontes de uma beleza inesperada.
Se te pedi para vir até aqui, é porque quero morar em um canto da sua tristeza para saber se, um dia, você me abrirá uma porta para a felicidade... porque prefiro partilhar o peso da sua vida a mastigar o vazio da minha.
Acredite: faz ja algum tempo que minha consciência é grande demais apenas para mim. Não quero que você cure minha vida... apenas estar nela e, se quiser, me deixar entrar um pouco na sua. Mas você é a estrela cadente e eu, um mero caçador de borboletas.
Mesmo assim, não consigo deixar de sonhar.
Esse mundo tem realidade demais, e sei que ela esta contra mim.
Mas se te chamei até aqui, se tive coragem de falar até agora, é para te dizer apenas isso:
Te quero para um sonho. A realidade que apareça quando puder”.
Deixou o vento levar para longe as ultimas palavras, enfiou a mão no bolso à procura de um cigarro que acendeu e deixou queimando no canto da boca, baixou a venda sobre os olhos e atou os punhos atrás das costas. Tragou longamente, esperando a ordem de “fogo”, e soltou a fumaça.
Que subiu
Como um anjo no céu de Paris.


